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Marajoara


A maior parte dos achados arqueológicos da Amazônia apresenta um desenvolvi-mento estilístico  e  uma  técnica  decorativa superior, fazendo-se crer que essas culturas não  surgiram  e  se  desenvolveram  no  local, mas  foram  originários de outras áreas.

A civilização marajó não deixou para a posteridade cidades e obras de arquitetura, porém legou uma cerâmica pela qual pode ser reconstituída toda a sua história.

A antiga Zona Fisiográfica de Marajó e presentemente compreende duas Micro-Regiões Homogêneas – Campos de Marajó e Furos – num total de 16 municípios, tendo uma área de 141.040 km – equiparando-se as áreas da Bélgica e da Áustria, juntas – está situada na foz do rio Amazonas entre o Território Federal do Amapá, o Oceano Atlântico, a Baía de Marajó e o rio Pará.

A Ilha de Marajó está dividida em duas áreas  fisiográficas naturais, a parte leste compreende uma área de cerca de 23.000 Km2  e é constituída por uma grande planície com vegetação tipo savana: a parte oeste, com uma área de 26.500 Km2 , é recoberta por densas florestas.

Várias teses têm sido desenvolvidas e definidas com a finalidade de determinar as origens da cerâmica de Marajó.

Defende-se a tese da origem plectogênica dos motivos da cerâmica, achando que a louçaria marajoara evoluiu na própria região e teve como origem a arte do trançado (cestaria).

O mais importante estudo com relação à cultura marajoara ocorreu somente em 1948, quando os pesquisadores norte-americanos Clifford Evans Jr. e Betty J. Meggers aplicaram o método de estratigrafia arqueológica em Marajó – um dos mais modernos processos de investigação científica dentro da Arqueologia – que estabeleceu fases ceramistas da ilha.

As fases arqueológicas na Ilha de Marajó foram cinco, que correspondem a diferentes culturas e níveis de ocupação: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Marajoara e Aruã.

Fase Ananatuba, faz parte da Tradição Hachurada – Zonada localização geográfica a parte norte-central da Ilha de Marajó, estendendo-se a sudeste do lago Arari no rio Camará. A cerâmica desta fase apresenta-se desenvolvida e tem como características as incisões, hachurado*1 e engobo*2 vermelho.

*1 – Traços eqüidistantes e paralelos que produzem, em desenhos e gravuras, o efeito do sombreado. Do francês hachure.

*2 – Camada; banho; operação em que se cobre uma peça de cerâmica com uma camada terrosa, que disfarça a côr natural do barro.

Fase Mangueiras, (contemporânea da fase anterior a partir do terço final da duração desta fase) desenvolveu-se na parte norte-central da Ilha de Marajó e sul da ilha de Caviana; a sua cerâmica é caracterizada dentro da Tradição Borda Incisa e recebeu influências - particularmente no que diz respeito a ornamentação – da fase anterior; as peças de cerâmica eram, na sua maior parte, pequenas tigelas e igaçabas, provavelmente utensílios de cozinha.

Fase Formiga, ocupou a parte norte-central da Ilha de Marajó, estendendo-se para sudeste do lago Arari e sua cerâmica, de qualidade pobre, não apresenta características de modo a ser encaixada em um determinado estilo.

Fase Marajoara, representa a época de um povo, que chegou a ilha em todo o seu apogeu, tendo porém decaído gradativamente. Esta fase faz parte da Tradição Policrômica*3 que se caracteriza pela exuberância e variedade da decoração, utilizando pintura vermelha e preta sobre engobo branco.

*3 – Estado de um corpo em que há diferentes côres; qualquer processo de impressão em que se utilizem mais de três tintas.

Fase Aruã, na Ilha de Marajó ocupou a parte litorânea, de Chaves para leste até o cabo Maguari e em direção sul até a cidade de Soure. A louçaria não está filiada a nenmhuma fase ceramista e é de qualidade bem inferior; somente as igaçabas destinadas a enterramento secundário apresentam decoração.

URNAS FUNERÁRIAS E VASOS

As urnas funerárias podem ser consideradas a característica da Fase marajoara e o apogeu da arte dos povos da antiga ilha de Joanes.

Os têsos – também chamados aterros artificiais ou mounds – foram introduzidos no Marajó pelos indígenas da Fase Marajoara e adviram por uma questão de tradição deste povo, ou em virtude de que as elevações rasteiras e inundações não permitam a utilização do tipo de habitação a que estavam acostumados. Os têsos eram utilizados como habitação ou cemitério e é grande e variada a quantidade de cerâmica nelas achada, principalmente na chamada “Ilha” Pacoval, no lago Arari.

As urnas eram destinadas a enterramentos secundários – somente ossos. Pesquisadores dos têsos de Marajó tecem as seguintes considerações: “Os enterramentos das urnas funerárias nos mounds – cemitérios eram feitos uns sobre os outros, sem qualquer preocupação de não perturbar os anteriores, e há indicações de que grandes fogueiras foram acesas na superfície, bem como de que os ossos eram pintados de vermelho. Faziam oferendas aos mortos, , por ocasião dos enterramentos, e a estratigrafia corrobora a prova de que a louça dos diferentes tipos, excisa, incisa e pintada”.

Além dos ossos foram encontradas em algumas urnas funerárias, areia, cinza e fragmentos de cerâmica. A variação na decoração das urnas – umas finalmente decoradas e outras mais simples – indicava a posição social do morto.

As decorações utilizadas nas urnas funerárias eram dos tipos Joanes Pintado – engobo branco sob pintura vermelha e preta formando desenhos geométricos – incisa (gravado) e excisa (relevo) ou técnica do champlevé. Esta técnica é um processo muito utilizado por entalhadores em madeira e esmaltadores nos metais; consiste em “decalcar um desenho sobre uma superfície lisa e escavar depois o contorno, em certa profundidade, obtendo assim uma gravura em relevo”. A técnica excisa foi utilizada por indígenas na América do Sul e na América do Norte; na Amazônia a única excessão foi feita pela Cultura Tapajó, cuja cerâmica não apresenta vestígios da utilização deste método.

Havia urnas que apresentavam modelagem nos dois lados do vaso ou em um só lado, representando figuras estilizadas em forma de animal ou de face humana. Há um tipo de urna funerária que apesar ter a forma de vaso, com estreitamento no gargalo e borda estrovertida, lembra uma figura humana, com as mãos na boca, que deve representar uma forma de não exteriorização com relação a determinadas circunstâncias ou culto religioso.

Além das urnas, são encontrados nos tesos, pequenos vasos, quase sempre de forma arredondada, que provavelmente eram utilizados como oferendas nas cerimônias fúnebres. Atualmente os ceramistas do Município de Ponta de Pedras (Marajó), destacam-se pela beleza com que elaboram reproduções destas peças, aliando a técnica indígena aos modernos métodos utilizados na arte cerâmica.

TANGAS


As tangas de cerâmica da Ilha de Marajó, são, segundo Eduardo Galvão, “as peças  definidoras por excelência da fase marajoara, pela exclusividade, originalidade e tratamento decorativo”.

As tangas são uma evidência isolada do contexto cultural de Marajó, não se podendo precisar até hoje se a sua utilização era como ornamento pessoal ou peças ligadas exclusivamente a cerimônias de natureza religiosa.

A palavra tanga advém de uma moeda asiática; uma “tanga” servia para comprar um pedaço de pano com a finalidade de cobrir as partes íntimas. Em língua aruã a palavra utilizada para designar tanga é babal, que quer dizer avental.

Na índia a tanga de forma triangular era utilizada como oferenda a Ione – Deusa da Maternidade; na Colômbia há notícias de gravuras da tangas rudimentares em oferenda a Banchue, também chamada a Mãe dos Homens.

As tangas de fibras vegetais e de plumas são encontradas nas diferentes culturas indígenas da América; porém as tangas de barro são artefatos arqueológicos com evidência exclusiva na Ilha de Marajó e têm servido de estudo para pesquisadores através dos tempos, sem se ter chegado a uma teoria definitiva. As tangas têm sido encontradas, em alguns casos, atadas às urnas funerárias femininas.

O italiano Antônio Mordini endossa a teoria de que as tangas eram ornamentos pessoais femininos, comumente usados, pois muitas peças encontradas demonstram as impressões feitas pelo atrito dos cordões por onde as mesmas eram fixadas no corpo.

A tanga de cerâmica encontrada nas escavações arqueológicas em Marajó tem o fomato triangular, superfície abaulada, com os lados curvos. Apresenta furos nos vértices, por onde presume-se, eram enfiados finos cordões pelos quais a tanga era suspensa. Foram encontrados dois tipos de tanga, com referência à decoração: “Um mais simples cujo único tratamento decorativo é um banho ou engobo vermelho, e outro em que predomina a pintura de traços vermelhos sobre fundo branco. Em alguns exemplares aparecem desenhos em preto, ou combinação de preto e vermelho sobre fundo claro. É característica dessa ornamentação, uma faixa do lado superior, com linhas verticais e inclinadas, intercaladas com triângulos sólidos”. A tanga faz parte da tradição ceramista policrômica da fase Marajoara e ressalta-se que as peças arqueológicas encontradas não apresentam desenhos repetidos.

Fonte: Guia das Exposições de Antropologia

ESTATUETAS


As estatuetas ou ídolos têm sido assinaladas em várias fases arqueológicas de Marajó, principalmente na Fase Mangueiras, que faz parte da Tradição Borda Incisa.

Estatuetas modeladas em barro, representando a figura humana em formas estilizadas, são muito encontradiças nos tesos funerários. De tamanho pequeno geralmente inferior a 20 cm, distinguem-se pela cabeça alongada ou triangular, ausência de braços e pernas simplificadas, abertas em “U” , que dão base de apoio à figura. Geralmente são ocas, contendo seixos no seu interior, que produzem som como os maracás, quando sacudidos. São decoradas segundo as técnicas usuais da fase marajoara, pintura ou desenho gravados. O sexo quando indicado é geralmente feminino. Atribui-se a essas, funções mágico-religiosas.

As estatuetas apresentam quase sempre pintura branca com decorações de desenhos geométricos em tons de vermelho. A representação da face lembra máscaras usadas em cerimônias.

As reproduções de estatuetas marajoaras dos artesãos da Exposição-Feira do Artesanato são baseadas em cópias de peças autênticas, porém determinados ceramistas improvisam estilizações com base em seus talentos artísticos.

Fonte: Guia das Exposições de Antropologia
 Arte Indígena da Amazônia

ESTILIZAÇÕES

A cerâmica de Marajoara sempre foi – dentre as expressões artísticas dos povos indígenas pré-cabralinos DA Amazônia – a que mais se tem prestado para imitações estilizações.

As concepções geométricas dos desenhos marajoaras têm dado margem a um desenvolvimento plástico, grande e variado, por parte do artesão paraense, assim como a forma da louçaria, particularmente as urnas funerárias e os vasos.

A característica mais marcante da cerâmica marajoara é obtida através da técnica de decoração que é a “forma mais primitiva das artes plásticas”. A decoração é feita com pintura – em duas ou três côres, predominando o branco, o vermelho e o preto – ou através de desenhos em forma de relevo ou gravado.

Além da técnica decorativa destacam-se os processos utilizados pelos oleiros, pois a cerâmica depende da qualidade e do tipo de argila e do processo de queima.

As peças estilizadas compreendem vasos, pratos para adorno lembrando a forma dos alguidares indígenas e utensílios de uso doméstico.

Fonte: As Artes Plásticas no Brasil

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